Minha Maldição


Gostaria que seu corpo inflamasse

Como o meu, e o sentisse dolorido.

Tão profundo, que visse o osso descolorido.

Como se apanhasse de um chicote que não visse.

E que sentisse esta Dor escura

Cegando tua vista como uma navalha afiada,

E sentisse na cabeça o peso de uma enxada.

E de fora escutasse teu estômago em fervura.

E se visse acordada na maca de um legista,

E que esta Dor ora fosse um rato, ora uma vela,

Que queimasse e mordesse com raiva tua canela.

E que todos a olhassem como uma vigarista.

E ao espelho vomitasse por teu próprio rosto,

Pálida e doente. Sem unhas sobre os dedos.

E esta Dor te convencesse de todos teus medos,

E desta vida e dos teus dias não tivesse mais gosto.

E se visse urinando pelo chão como uma demente,

E sentisse tua lividez chegando ainda moribunda.

Fosse julgada pecadora e delas fosse a mais imunda,

Amarrada e forçada a comer sem ter ao menos um dente.

E que assistisse teu profundo coma de uma poltrona fútil

Viva, desenganada e vencida por esta Dor carrasca.

E inalasse teu próprio cheiro podre da tua casca.

E como eu, se sentisse uma alma descrente e inútil.

Rastejando pelo chão como um lagarto,

Sem perna, cega e por esta Dor, muda.

E como se há dez anos sentisse dor de parto.

Gritando à Morte, sem que ela escutasse.

Mas o que penso? Meu Deus. Gostaria...

Que das maiores torturas, me amasse!!

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